Tuesday, October 27, 2009

A carta

Image by Hippie_stock (DeviantArt)


Caros amigos,

Estou doente.
Doente e sem perspectivas em vista… de melhorar.
Sempre estive doente. Toda a vida.
Sei-o agora.
Sei-o por cada dia em que vos agendei num tempo só meu para tentar que fosse um pouco vosso.
Por cada farrapo de tempo, por mais inútil que fosse, que perdi convosco e não comigo.
Estou doente.
Exteriorizo.
Sou um monstro e o meu sopro de vida é admiti-lo.
Não pedi existência. Incumbiram-me dela.
Não aguento mais esta pressão exercida pela soma dos erros que cometi.
Conheço o meu íntimo e os meus desejos, pelo que sei que não conseguirei aguentar a pressão dos erros que virei a cometer.
Mesmo agora já é demais.
Estou saturado. E por isso…
Meus amigos… abandono-vos.
Limpo-vos da minha agenda.
Não tenho tempo.

Monday, August 31, 2009

o reflexo que me olha fixamente do espelho não sente. vive por detrás dos olhos parados, da pele imaculada. aquele rosto que é, também, o meu tem a sorte leve das cinzas. não sente dor. tem a embriaguez de viver num corpo sem escombros, sem sombras. troco de lugar com o reflexo.

Imagem de Mariah

Friday, August 28, 2009

sui caedere

se pudesse pegar num punhal e retalhar a carne
retirar o sal às lágrimas que as torna reais
se pudesse polvilhar os dedos com as cinzas do encanto
trespassar a esperança vestida de realidade
se pudesse reinventar-me na margem da folha de papel
escrever-me a sangue, a sorte e a detalhe como arte
mas sonho esta incauta consciência
com o além de uma outra vida desejada
que se perdeu nas asas da infelicidade,
do azar, do erro, do temor
se pudesse apagava-me e vestia-me de lírio
para começar a manhã com o orvalho da inocência
se pudesse caligrafava-me como metáfora do tempo ardente
na biografia da raiz forte, carnada de centelhas à superfície de mim
mas mastigo todo o projecto de argila mesmo com o desacerto crónico
e a noite bate no silêncio do espaço no fluxo das sombras que carrego
se eu pudesse matava-me.



"A ideia do suicídio é um potente meio de conforto: com ela superamos muitas noites más."
Friedrich Nietzsche

Wednesday, July 22, 2009

fatum


as horas que perecem dentro das minhas mãos
são livros lidos que resvalam das estantes fulgentes
do meu espírito omnipresente.
coloca-as dentro das minhas pulsões.
- sufoca-os -

Imagem de grENDEL [Olhares]

consta por aí
boatos, naturalmente,
que sou feliz.

Imagem de Regiane Cristina [Olhares]

Tuesday, July 21, 2009

corpora delicti



abro-te a pele, a carne, a volúpia
no encantamento de te teres tornado um espectáculo
digno da sede dos meus fantasmas, das minhas sombras.
entre beijos, carícias, desejo, lume intenso
rendo-me à arte da fusão entre os elementos,
à metamorfose dos aléns do[s] nosso[s] imaginário[s].
esboroa-se o pudor quando me atravessas no calor
dos nossos pórticos entrelaçados.
cai em mim a transfiguração de dois sentimentos num só,
- cinco sentidos em rubra construção da realidade -
e sinto um poderoso fermento de sentimentos a percorrer-me.
provo o teu sémen que me dá vida, que me devolve a mim,
essa esteira de quietude vinda das entranhas de um deus.
corpora delicti - intraduzível estado de êxtase
este em que me rompes em lua e sol e me fazes florescer
nos teus braços rendilhados a amparo e paz.


Imagem de Regiane Cristina [Olhares]

Monday, July 13, 2009

dizem-me que o amor que grande medo não cabe nos sentidos. não cabe no verão dos afectos. é a forma perfeita de sonhos puros de madrugada onde cabe no todo o total. duro estado. é o dilema do determinismo. o amante antropológico do sentimento. a acção. a intenção. o motivo. o projecto. a força da gravidade em que nascemos, vivemos, morremos. dizem-me que o amor, meu amor é alternativa, acontecimento, causa e efeito. reside na metaética da consciência moral. é anomalia, enigma, avaliação subjectiva. é confirmável. falsificável. não passa de um critério. é um bater de asas que nasce de si para si em céus de um outro. é o tal cálice com o fogo do inferno infinito. é um sacrifício ritual em que se perfilam corpos a arder. é a crise do sujeito que se esquece e se torna o outro. é o espelho distorcido. é a máscara labiríntica que os amantes usam ao anoitecer. é solidão. egotismo. altruísmo fragmentado. é antítese e paradoxo de si mesmo. dizem-me que o amor é loucura intempestiva com vestígios de sensações extremas. é a recusa inconsciente do pensamento. é o abraçar da impulsividade. não cabe em si de tão grande. é uma involuntária submissão sem o depurar dos sentidos. dizem-me que o amor é doença e a aspiração à morte serena nos braços do outro. mas que sabem estes outros que também me habitam? eu sei-te. eu sinto-te como anjo tangível, como nevoeiro, como promessa, como sonho humano, metafísico e universalista. eu sinto-te a minha ilimitada metáfora de divinização. sinto-te sentimento que se torna chaga e antídoto na encruzilhada da nossa dor e da nossa entrega.

Sunday, July 12, 2009

O erro...

Vida...

estranho sentimento errante, de um ser pensante que alguma vez pensou no saber do erro.
Pura ilusão de quem cresceu no seio de um mundo irreal, onde sempre sentiu a protecção de quem não pensa, não saber sequer o que é o cheiro a vida...mas no entanto...no erro dessa ignorância esboça-se um sorriso ridículo de quem pensa saber tudo sobre tudo...
mas os espelhos existem para dar o grito: "acorda estúpido, tu não existes".
E volta-se à pequenez que sempre caracterizou um iludido egocêntrico...e volta-se a errar...
...e o amanhã chega, coberto por uma neblina de dúvidas e um céu de angústia pelo receio de errar novamente e começar a tratar o erro por tu, como sempre tratou, como sempre fez parte de uma vida de (in)existência... que se pensou um dia ser vida...
Se um dia a insignificância deste ser pudesse ter um outro fim que não o erro...
...bastava a simplicidade de um sorrir ou um acenar da superfície no salvamento de quem percorre o eterno abismo...


"O erro é a noite dos espíritos e a armadilha da inocência."
Vauvenargues , Luc de Clapiers